O Thor já tinha 15 anos. Ele mal andava, estava cego de um olho e surdo. Mas, toda noite, pontualmente às 3h da manhã, ele fazia algo que me dava calafrios. Ele se levantava com dificuldade, ia até a poltrona velha da sala, olhava para o vazio e abanava o rabo. Às vezes, ele dava latidos curtos, agudos, como fazia quando era filhote e queria brincar.
Eu ficava apavorado. "Tem coisa ruim nessa casa", eu pensava. Tentei benzer a casa, mudei os móveis de lugar. Mas o Thor continuava "conversando" com a parede. Eu achava que era demência canina. Tristeza da idade.
Na terça-feira passada, o Thor partiu. Ele morreu dormindo na sala, no tapete dele. Eu acordei e ele já estava frio. Chorei o dia todo. À noite, decidi olhar a câmera de segurança interna para ver se ele tinha sofrido, se tinha sentido dor antes de ir.
O que eu vi na gravação mudou minha visão sobre a morte para sempre.
Eram 03:00 da manhã no vídeo. O Thor estava deitado, imóvel. De repente, a imagem da câmera começou a chiar. Uma interferência estranha. Uma névoa branca, brilhante, começou a se formar perto da poltrona velha. A névoa não era informe. Ela ganhou altura. Ganhou contorno. Formou a silhueta de um homem jovem, usando boné virado para trás e bermuda.
Na gravação, o Thor levantou a cabeça. Ele não se levantou com dor. Ele deu um pulo. O Thor "saiu" do próprio corpo. Eu vi a forma luminosa do meu cachorro, jovem de novo, forte, pulando no peito daquela silhueta. O homem se agachou e abraçou o cachorro. Eu podia jurar que vi o Thor lambendo o rosto dele.
Eu congelei. Aquele jeito de agachar... aquele boné... Era o meu irmão, o Júnior. O Júnior faleceu há 8 anos num acidente de moto. O Thor era o cachorro dele. Eu herdei o Thor quando meu irmão morreu. O cachorro passou a vida inteira esperando o dono voltar.
E ele voltou. O Júnior veio buscar o melhor amigo. Eles saíram juntos pela porta da frente, que na câmera nem se abriu, atravessando a madeira como se fossem luz.
Eu desliguei o computador chorando, mas dessa vez, de alívio. O Thor não estava latindo para o nada. Ele estava vendo o dono dele dizendo: "Calma, garoto. Falta pouco pra gente ir passear de novo."
A lição que acalma o coração: Nossos animais nunca partem sozinhos. Nenhum bicho morre abandonado. Alguém que os amou muito — seja um parente, um antigo dono ou um anjo protetor — sempre vem fazer a passagem com eles. O amor é o único laço que a morte não corta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário